A notícia da morte de Lampião, ocorrida em 28 de julho de 1938, no coito de Angico, em Sergipe, espalhou-se rapidamente pelo sertão nordestino, abalando profundamente os remanescentes do cangaço. Um dos mais impactados foi Cristino Gomes da Silva Cleto, conhecido como Corisco, o “Diabo Loiro”. Naquele momento, Corisco não se encontrava em Angico.
Ele havia se separado do grupo principal dias antes, seguindo com sua companheira Dadá e alguns homens para outra região, cumprindo uma missão ou buscando mantimentos, como era comum entre os bandos cangaceiros. Essa separação foi, por ironia do destino, o que garantiu sua sobrevivência.
A notícia chegou a Corisco por meio de informantes ou sertanejos, que contaram com detalhes o massacre promovido pelas volantes (forças policiais especiais) sob o comando de João Bezerra e o tenente Zé Rufino. O impacto da notícia foi devastador.
Lampião, líder supremo do cangaço por quase duas décadas, era mais que um chefe: era símbolo de resistência, de poder e, para muitos cangaceiros, uma figura paternal. A morte de Lampião, de Maria Bonita e de outros nove cangaceiros naquele fatídico amanhecer rompeu o eixo de sustentação da estrutura do cangaço como movimento organizado.
Relatos apontam que Corisco ficou transtornado ao saber do fim brutal de seus companheiros. A decapitação dos corpos, expostos como troféus em praças públicas, provocou-lhe fúria e desejo de vingança.
Para ele, não se tratava apenas da perda de aliados, mas da destruição de uma irmandade forjada em anos de convivência na luta contra o poder oficial. A partir daquele momento, Corisco recusou qualquer ideia de rendição ou fuga. Assumiu, simbolicamente, o posto de sucessor de Lampião e passou a comandar os cangaceiros restantes, agora em número bem reduzido.
Corisco e os cangaceiros que restaram
Após o massacre de Angico, cerca de 30 a 40 cangaceiros ainda estavam vivos, espalhados em pequenos grupos pelo sertão. Muitos optaram por abandonar o cangaço ao perceber que a liderança havia ruído e que as forças repressivas estavam cada vez mais implacáveis.
Outros, como Corisco, insistiram na resistência armada por mais algum tempo. Ele passou a atacar fazendas e vilarejos ligados a pessoas que colaboraram com as volantes ou celebraram a morte de Lampião.
Entretanto, o fim do cangaço estava próximo. Corisco foi morto em 25 de maio de 1940, após confronto com policiais na Bahia. Gravemente ferido, veio a falecer dias depois.
Sua morte marcou o encerramento simbólico do ciclo do cangaço, um fenômeno complexo da história brasileira, alimentado por desigualdades, disputas de poder e uma cultura de resistência no sertão. Com Lampião e Corisco mortos, o cangaço entrou definitivamente para a memória e o imaginário popular do Brasil.
