O encontro entre Padre Cícero e Lampião ocorreu em 1926, em Juazeiro do Norte (Ceará), e está cercado de curiosidades, tensões políticas e religiosidade popular. Esse momento selou uma breve aliança entre o cangaço e o poder local, revelando as complexas relações entre fé, política, justiça e sobrevivência no Nordeste da Primeira República.
Em 1926, o Brasil vivia uma grave instabilidade política. O governo federal, preocupado com as ações da Coluna Prestes – movimento militar de oposição ao regime – buscava apoio em todas as frentes. Sabendo da influência de Padre Cícero no sertão, solicitou a ele que organizasse uma resistência à Coluna. Foi nesse contexto que se abriu uma inesperada possibilidade: Lampião, o cangaceiro mais temido do Nordeste, poderia se tornar um aliado contra os revoltosos. Cícero, então, viu na convocação do cangaceiro uma estratégia útil para proteger a região.
Padre Cícero organizou o encontro
O convite para Lampião vir a Juazeiro partiu por meio de intermediários ligados ao governo estadual e eclesiástico. Sabendo disso, Lampião desceu com cerca de 50 homens até o Ceará, e entrou em Juazeiro no dia 2 de março de 1926. A população, que conhecia a fama sanguinária do bando, assistiu tudo com temor e espanto. O mais curioso é que, mesmo com crimes nas costas, Lampião foi recebido com honras, hospedado e tratado como aliado, como se fosse um general. A promessa era clara: se lutasse contra a Coluna Prestes, receberia patente militar e perdão judicial.
Padre Cícero era visto por muitos sertanejos como um “santo vivo”, e isso incluía Lampião. Segundo relatos da época, o cangaceiro entrou na casa do padre humildemente, tirou o chapéu de couro e, emocionado, beijou as mãos do religioso. Teria dito: “Meu padrinho, se eu soubesse que o senhor era tão santo, já tinha vindo aqui há muito tempo.” Esse gesto revelou o lado supersticioso e devoto de Lampião, que acreditava estar, naquele momento, se aproximando de uma figura sagrada e talvez se libertando do peso de seus pecados.
Uma das maiores curiosidades é que Lampião saiu de Juazeiro com uma patente oficial de “Capitão do Exército Patriótico”. O documento foi expedido por figuras ligadas ao governo estadual e endossado por Cícero, ainda que informalmente. A farda que usou era um uniforme improvisado, e a patente, embora simbólica, reforçou seu prestígio entre os cangaceiros. Ele se tornou, aos olhos do povo, uma autoridade oficial. O episódio mostra o quanto as fronteiras entre legalidade e ilegalidade eram tênues no sertão.
Lampião jamais combateu a Coluna Prestes
Apesar de aceitar a patente e prometer lutar contra a Coluna Prestes, Lampião jamais participou efetivamente do combate. Preferiu seguir sua trajetória como chefe do cangaço, agora com a chancela simbólica de um líder religioso e político. Essa quebra de promessa deixou muitos desapontados, inclusive o próprio Padre Cícero, que esperava que o cangaceiro abandonasse os caminhos da violência. Mesmo assim, Lampião seguiu dizendo que respeitava e obedecia ao “Padim Ciço”.
Durante os dias em que Lampião esteve em Juazeiro, a cidade viveu um clima de tensão e espetáculo. Curiosos vinham de longe para ver o famoso cangaceiro. Muitas pessoas se acotovelavam para vê-lo passar pelas ruas, sempre cercado por seus homens, todos armados e vestidos com os trajes típicos do cangaço. Algumas mulheres jogavam flores; outras pediam bênçãos. Lampião era, ao mesmo tempo, temido e admirado, um verdadeiro mito vivo.
Outro personagem importante nesse episódio foi o coronel Floro Bartolomeu da Costa, braço direito de Padre Cícero e político influente. Floro foi o articulador do plano de incorporar Lampião à resistência armada legalista. Foi ele quem conduziu boa parte das negociações, redigiu os documentos e ofereceu garantias ao cangaceiro. A relação entre Floro e Lampião foi breve, mas crucial para o desfecho do encontro.
Ao contrário do comportamento brutal que exibia em outras cidades, Lampião impôs ordem ao seu grupo durante a estadia em Juazeiro. Ordenou que ninguém roubasse, ameaçasse ou maltratasse os moradores. Isso reforça a teoria de que ele realmente reverenciava o padre e desejava, naquele momento, uma forma de redenção ou mudança de rumo. Muitos habitantes da cidade, inclusive, recordaram-se desse gesto como sinal de que Lampião poderia ter seguido outro caminho.
O padre se afastou do cangaceiro
Anos depois, Padre Cícero se afastaria da imagem de Lampião. O religioso ficou decepcionado por não ter conseguido convertê-lo definitivamente e se preocupava com sua reputação diante das autoridades e da Igreja. A amizade entre os dois acabou, e o padre passou a negar envolvimento com o cangaceiro. Mesmo assim, Lampião continuou se referindo a ele com respeito, como “meu padrinho”, até o fim da vida.
O encontro virou tema de folhetos de cordel, músicas, filmes e estudos acadêmicos. A narrativa popular romantizou o momento, criando versões idealizadas em que Lampião teria sido abençoado por Cícero e quase se tornado um homem santo. Até hoje, em Juazeiro, há quem diga que o encontro foi um milagre frustrado: o bandido esteve a um passo da redenção, mas o destino e as armas falaram mais alto.
O encontro entre Lampião e Padre Cícero em 1926 é um dos episódios mais fascinantes da história do sertão nordestino. Reúne elementos de política, fé, mito e pragmatismo. A tentativa de transformar o rei do cangaço em herói da legalidade revela o quanto as estruturas de poder no sertão eram fluidas e adaptáveis. O episódio reforçou a aura mística de ambos os personagens e permanece, até hoje, como um símbolo das contradições e esperanças de um Brasil profundo.
