O assalto de Lampião à casa da Baronesa de Água Branca é um dos episódios mais emblemáticos da era do cangaço, marcado por ousadia, violência e também por uma surpreendente dose de cavalheirismo por parte do líder cangaceiro. O episódio ocorreu no município de Água Branca, no sertão de Alagoas, provavelmente entre o final da década de 1920 e início dos anos 1930, quando o bando de Lampião estava em seu auge de atuação no Nordeste brasileiro.
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, era temido por suas ações rápidas e violentas contra fazendeiros, coronéis, autoridades e propriedades de famílias tradicionais. Em uma de suas incursões, ele decidiu atacar a casa da Baronesa de Água Branca, pertencente à família Malta, uma das mais influentes da região. A baronesa era viúva do Barão de Água Branca e já era uma senhora idosa quando teve sua casa cercada pelo bando de cangaceiros.
Segundo relatos orais e escritos da tradição regional, quando Lampião chegou à casa da baronesa, encontrou resistência inicial por parte de empregados e jagunços, mas rapidamente dominou o local. O que torna esse episódio peculiar é o comportamento de Lampião diante da baronesa. Ao invés de simplesmente saquear e destruir tudo, ele teria demonstrado respeito à figura da mulher idosa e mantido uma postura menos violenta do que o usual.
Lampião disse que só roubava de quem podia lhe pagar
Mesmo assim, o assalto não deixou de ser um ato de intimidação. O bando exigiu dinheiro, joias e alimentos, como de costume. A baronesa, conhecendo a fama de Lampião, tentou negociar e demonstrou coragem ao enfrentar verbalmente o líder cangaceiro. Há quem diga que ela teria repreendido Lampião por sua vida de crimes, e que ele, em resposta, teria dito algo como: “Minha senhora, eu só roubo de quem pode me pagar.” Essa frase, embora talvez apócrifa, ajudou a construir o mito do “bandido social” que roubava dos ricos, mesmo que a realidade do cangaço fosse muito mais complexa e violenta.
Após o assalto, Lampião e seu bando partiram levando dinheiro, objetos de valor e mantimentos. Não há registro de mortes nesse episódio específico, o que reforça a ideia de que Lampião escolhia seus alvos com estratégia — ora impondo o terror, ora tentando conquistar simpatia popular ao demonstrar certa “honra”.
O ataque à casa da baronesa tornou-se um símbolo do confronto entre o poder tradicional das elites sertanejas e o poder à margem representado pelo cangaço. Essa história ainda ecoa na memória cultural do Nordeste como exemplo do modo como Lampião desafiava a ordem estabelecida — às vezes com sangue, outras com palavras afiadas e atitudes inesperadas.
