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A outra versão de Lucrécia Bórgia

A outra versão de Lucrécia Bórgia
Lucrecia Borgia reina no Vaticano na ausência do Papa Alexandre VI, Frank Cadogan Cowper, Óleo sobre tela, 1910

A fama de Lucrécia Bórgia como mulher devassa e pervertida atravessou séculos, alimentada por boatos de incesto, envenenamentos e jogos de sedução. Contudo, muitos historiadores modernos reavaliam essa imagem, mostrando que boa parte do que se dizia sobre a filha do papa Alexandre VI era, na verdade, fruto de propaganda política, preconceito e misoginia.

Lucrécia nasceu em 1480, em meio ao auge do poder da família Bórgia, de origem espanhola. Seu pai, Rodrigo Bórgia, se tornaria papa Alexandre VI, e seu irmão, César Bórgia, comandante militar ambicioso. A família despertava ódio entre nobres italianos, especialmente os Orsini, Colonna e Sforza. Não por acaso, as acusações contra Lucrécia vieram justamente desses círculos rivais, interessados em enfraquecer os Bórgia com difamações.

Os indícios de que Lucrécia não era a mulher promíscua que muitos imaginam começam por sua juventude: ela foi usada como peça política em casamentos arranjados para consolidar alianças. Seu primeiro casamento, com Giovanni Sforza, foi anulado sob a alegação de impotência do marido. Humilhado, Giovanni revidou dizendo que a anulação foi feita para encobrir um suposto caso de incesto entre Lucrécia e o pai ou irmão — uma acusação sem provas, mas que marcou sua reputação.

Outro ponto que joga luz sobre a inocência de Lucrécia são as cartas que ela escrevia, muitas delas preservadas. Esses documentos revelam uma mulher sensível, culta e religiosa. Longe de serem mensagens de uma mulher lasciva, mostram afeto, piedade e até tristeza pelos dramas familiares, como o assassinato de seu segundo marido, Alfonso de Aragão, possivelmente ordenado por César.

Lucrécia Bórgia como duquesa de Ferrara

O capítulo mais revelador de sua vida é o período como duquesa de Ferrara, após seu terceiro casamento com Alfonso d’Este. Ali, Lucrécia se tornou uma figura respeitada, governando com diplomacia e sendo patrona das artes e das letras. Era admirada por intelectuais e pela população, que a via como uma mulher equilibrada, devota e refinada. Em Ferrara, ela teve vários filhos e viveu longe dos escândalos que marcaram sua juventude em Roma.

É importante lembrar que, naquela época, mulheres com poder ou beleza eram frequentemente retratadas como perigosas ou pecaminosas. Lucrécia Bórgia, filha de um papa e irmã de um comandante cruel, virou alvo fácil para lendas. Mas ao se analisar os fatos com base documental, percebe-se que sua imagem foi mais construída por inimigos e escritores fantasiosos do que baseada em condutas reais.

Assim, a figura de Lucrécia como uma mulher pervertida parece muito mais um mito renascentista do que uma realidade histórica.

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