Em 1926, o famoso cangaceiro Lampião concedeu uma rara entrevista ao médico Otacílio Macedo, no sobrado de João Mendes de Oliveira, localizado em Juazeiro do Norte, no Ceará. O encontro foi marcante, pois ofereceu uma oportunidade única para se conhecer mais de perto os pensamentos e motivações do homem que viria a ser conhecido como o “Rei do Cangaço”.
Na época, não existiam gravadores. Por isso, os jornalistas anotavam à mão as perguntas e respostas. Como Lampião era semianalfabeto, acredita-se que os repórteres tenham aprimorado o vocabulário de suas falas, sem, no entanto, distorcer o conteúdo original. O objetivo era transmitir com fidelidade o espírito de suas palavras.
Durante a conversa, Lampião foi questionado sobre sua identidade e a origem de sua vida no cangaço. Respondeu com firmeza: “Chamo-me Virgulino Ferreira da Silva e pertenço à humilde família Ferreira, de Água Branca.” E prosseguiu, revelando o que teria sido o estopim de sua trajetória como cangaceiro: “Foi meu pai, José Ferreira, barbaramente assassinado pelos Nogueiras e Saturninos no ano de 1917.”
Lampião dizia não confiar na justiça institucional
Virgulino explicou que, diante da conivência das autoridades com os assassinos, não confiava mais na justiça institucional. Segundo ele, os criminosos contavam com a proteção descarada de grandes figuras da região. Por isso, tomou a decisão de buscar justiça com as próprias mãos. “Resolvi fazer justiça por minha conta própria, isto é, vingar a morte do meu progenitor.”
O relato revela não apenas a motivação pessoal por trás da vida de Lampião como cangaceiro, mas também o contexto de violência e impunidade que marcava o sertão nordestino nas primeiras décadas do século XX. Sua fala mostra o quanto a ausência do Estado e a parcialidade da justiça alimentavam o ciclo de vingança e violência na região.
Essa entrevista é considerada uma das mais valiosas fontes sobre a origem do cangaço de Virgulino. Mostra um homem que se via como injustiçado e que, à sua maneira, procurava restabelecer o que entendia como honra e justiça. Embora sua trajetória tenha sido marcada por ações violentas e sangrentas, Lampião também buscava justificar suas escolhas com base em um código moral próprio.
Futuro do rei do cangaço
A entrevista também registrou a interação de Lampião com o público presente, incluindo a entrega de presentes e dinheiro aos moradores de Juazeiro. Além disso, Lampião expressou seu desejo de se tornar comerciante após sua experiência no cangaço.
Perguntado sobre os confrontos com as volantes, Virgulino respondeu:
“Não posso dizer ao certo o número de combates em que já tive envolvido. Calculo, porém, que já tomei parte em mais de duzentos. Também não posso informar com segurança o número de vítimas que tombaram sob a pontaria adestrada e certeira do meu rifle. Entretanto, lembro-me perfeitamente, de que além de civis, já matei três oficiais de polícia, sendo um de Pernambuco e dois da Paraíba. Sargentos, cabos e soldados era-me impossível guardar na memória os que foram levados para o outro mundo.”
