Padre Cícero Romão Batista, figura emblemática da religiosidade popular nordestina, viveu entre a devoção fervorosa do povo e o rigor da hierarquia católica. Sua trajetória sofreu um abalo profundo quando, no fim do século XIX, teve seu sacerdócio suspenso pelo Vaticano, após ser acusado de espalhar falsas crenças e desobedecer ordens da Igreja. No entanto, décadas após sua morte, o próprio Vaticano iniciou um caminho de reabilitação que culminou, em 2022, com o reconhecimento oficial de sua causa de beatificação.
A crise com a Igreja teve início em 1889, em Juazeiro do Norte, Ceará. Durante uma missa, a beata Maria de Araújo, ao comungar das mãos do padre, teria tido uma experiência mística: a hóstia teria se transformado em sangue dentro de sua boca. O fenômeno, interpretado por muitos como milagre, teria se repetido diversas vezes. A comoção foi imediata e se espalhou pela região, atraindo multidões de fiéis. Contudo, o episódio causou preocupação em autoridades eclesiásticas, que desconfiaram de fraude ou histeria coletiva.
A hierarquia contra Padre Cícero
A Santa Sé determinou investigações rigorosas. Médicos e teólogos enviados à região não encontraram evidências concretas do milagre, e a Igreja concluiu que os relatos não se sustentavam. Acusado de alimentar o fanatismo popular, desobedecer ordens e não colaborar com as investigações, Padre Cícero foi suspenso de suas funções sacerdotais em 1894, ficando proibido de celebrar missas, ouvir confissões ou exercer cargos eclesiais. Apesar disso, sua influência só cresceu: tornou-se líder político, foi prefeito e vice-governador do Ceará, e era visto por muitos como santo em vida.
Mesmo afastado da Igreja oficial, a devoção a Padre Cícero atravessou o século. Em Juazeiro, transformou-se em símbolo de fé, milagre e resistência do povo sertanejo. A cada ano, milhões de romeiros visitam sua estátua e seu túmulo, pedindo graças e pagando promessas.
O reconhecimento eclesial, porém, levou tempo. Somente em 2015, com o pontificado do Papa Francisco, houve uma reviravolta histórica. Após pedido da Diocese do Crato, o Vaticano reconheceu que Padre Cícero agiu de boa fé e que sua punição fora influenciada por julgamentos equivocados. A reabilitação moral foi simbólica, mas significativa.
Em 2022, veio o passo decisivo: a Santa Sé autorizou oficialmente a abertura do processo de beatificação, conferindo-lhe o título de Servo de Deus. A Igreja agora investiga as virtudes heroicas do padre e os possíveis milagres atribuídos a ele após a morte.
De controverso a venerado, Padre Cícero caminha para se tornar, aos olhos da Igreja, aquilo que o povo já reconhece há muito: um santo do sertão.
