Papagaios são aves extraordinariamente inteligentes, conhecidas não apenas por sua capacidade de imitar sons humanos, mas também por possuírem uma complexa forma de comunicação social. Entre os comportamentos mais impressionantes dessas aves está o uso de sons específicos — verdadeiros “nomes” — para identificar individualmente outros membros do grupo.
Essa descoberta tem sido confirmada por uma série de estudos científicos, sendo um dos mais relevantes o conduzido pela pesquisadora Karl Berg e sua equipe, publicado em 2012 na revista Proceedings of the Royal Society B. O estudo de Karl Berg analisou papagaios-da-serra (nome científico: Pyrrhura frontalis) em ambiente selvagem na Venezuela. Utilizando gravações e observações detalhadas, os cientistas constataram que os filhotes de papagaio não escolhem seus próprios “nomes”.
Papagaios filhotes recebem “nomes” próprios
Em vez disso, os pais emitem um som característico para cada filhote, ainda no ninho, e esse som é utilizado ao longo da vida do animal como uma forma de identificá-lo dentro do grupo. Esses sons são únicos para cada papagaio, semelhantes a nomes próprios em seres humanos.
Os papagaios, ao ouvirem esses chamados distintos, respondem prontamente, o que reforça a ideia de que eles reconhecem e se identificam com esse som específico. Segundo os autores do estudo, isso demonstra não apenas uma impressionante habilidade de vocalização, mas também uma forma de cultura vocal — um comportamento aprendido, transmitido socialmente entre gerações.
Esses sons de identificação são conhecidos na literatura científica como “contact calls” (chamadas de contato). Embora muitos animais usem sons para se comunicar, a complexidade da vocalização dos papagaios se assemelha, em certos aspectos, à linguagem humana. Outros pesquisadores, como Irene Pepperberg — famosa por seu trabalho com o papagaio-cinzento Alex — também destacam que os papagaios têm um senso avançado de cognição social e memória vocal.
Predisposição biológica para comunicação vocal
Outro dado interessante do estudo de Berg é que, mesmo em filhotes criados artificialmente, sem contato direto com os pais, os papagaios ainda desenvolvem “nomes” próprios, o que sugere uma predisposição biológica para esse tipo de estrutura vocal. Contudo, quando criados com os pais, a aprendizagem social predomina. Ou seja, os papagaios aprendem e reproduzem os sons que os pais usam para chamá-los, o que confirma a função de “batismo vocal”.
Essa forma de nomeação também pode ter uma função prática vital para a vida em bando. Em ambientes com muitos indivíduos vocalizando ao mesmo tempo, como nas florestas tropicais, o uso de sons específicos garante que a comunicação seja clara e eficaz. Isso reforça laços sociais e permite o reconhecimento individual, mesmo a longa distância, fortalecendo a coesão do grupo.
Portanto, os papagaios não apenas falam, mas sabem quem são — e quem os outros são — por meio de sons únicos atribuídos a cada indivíduo. O trabalho de Karl Berg e colegas representa um avanço fundamental na compreensão da linguagem animal e da inteligência aviária. Ele nos obriga a repensar os limites da comunicação entre espécies e a reconhecer que o que chamamos de “nomes” pode, de fato, existir em diversas formas no reino animal.
