A forma como os povos lidam com a morte revela muito sobre sua cultura, espiritualidade e visão de mundo. Enquanto em muitas sociedades ocidentais os funerais são eventos silenciosos e sombrios, marcados pelo luto, em outras partes do mundo o falecimento é encarado como uma transição espiritual a ser celebrada.
No México, por exemplo, o “Día de los Muertos” é uma festividade cheia de cores, flores e doces, onde as famílias montam altares com fotos e comidas preferidas dos entes falecidos. É um momento de reencontro simbólico com os mortos, marcado por alegria e música.
Na Índia, especialmente entre os hindus, o corpo é cremado em uma cerimônia pública à beira do rio, sendo o Ganges o mais sagrado. O ritual é conduzido por familiares, que seguem tradições milenares de purificação espiritual. Após a cremação, as cinzas são lançadas nas águas do rio, acreditando-se que isso ajuda a alma a alcançar a libertação do ciclo de reencarnações, o chamado moksha.
Rituais milenares
No Japão, os funerais budistas combinam simplicidade e reverência. O corpo é cremado, e as cinzas são depositadas em um túmulo familiar. Durante a cerimônia, monges entoam sutras, e os familiares realizam oferendas de incenso e flores. O respeito aos antepassados é profundo, e datas comemorativas são mantidas ao longo do ano, como o Obon, quando se acredita que os espíritos retornam para visitar os vivos.
Em Madagascar, há o curioso ritual chamado famadihana, ou “dança dos mortos”. A cada ano, os familiares exumam os corpos de seus ancestrais, envolvem-nos em novos tecidos e os levam em procissão festiva, com música e dança. Acredita-se que esse contato reforça os laços familiares e honra os mortos, garantindo-lhes alegria no além.
No Tibete, a tradição budista tibetana realiza o chamado “funeral celestial”. O corpo do falecido é levado a uma montanha sagrada e oferecido aos abutres, que o consomem por completo. Esse rito simboliza o desapego material e o retorno do corpo à natureza. Para os tibetanos, a alma já deixou o corpo, que agora deve beneficiar outros seres vivos.
Curiosidades contemporâneas
Em Gana, funerais são eventos grandiosos, muitas vezes mais caros do que casamentos. Caixões personalizados em forma de carros, peixes, aviões ou objetos que representem a profissão ou desejos do falecido são bastante comuns. O cortejo é acompanhado de música, dança e trajes coloridos, numa celebração da vida vivida.
Entre os povos maori da Nova Zelândia, o velório chamado tangihanga pode durar vários dias, com orações, danças de guerra (haka) e discursos emocionados. O corpo é exposto em uma marae (casa cerimonial), e toda a comunidade participa do processo de luto, fortalecendo os laços sociais e espirituais.
Na Coreia do Sul, além dos funerais tradicionais, há uma nova tendência: transformar as cinzas dos entes queridos em contas de vidro coloridas, conhecidas como death beads. Essas esferas podem ser exibidas em casa, como uma lembrança respeitosa e discreta da pessoa amada.
A morte no Brasil
No Brasil, predominam os velórios católicos, com o corpo exposto por algumas horas ou um dia, seguido do sepultamento. No entanto, influências africanas e indígenas enriquecem os ritos em diferentes regiões. Em comunidades quilombolas e indígenas, o canto, a dança e o contato direto com a natureza estão presentes, refletindo cosmovisões distintas sobre a morte.
Essas tradições mostram que, mesmo diante da dor da perda, os povos criam formas singulares de manter viva a memória dos que partiram. Seja por meio do silêncio, da festa, da religião ou da arte, o funeral é, acima de tudo, uma ponte entre o fim e a continuidade da vida — seja ela simbólica, espiritual ou cultural.
