Os animais desenvolveram muitas maneiras diferentes de se proteger, desde espinhos e dentes afiados como navalhas até camuflagem inteligente e conchas resistentes.
Recentemente, cientistas descobriram uma nova técnica surpreendente que parece ser um mecanismo de defesa: alguns polvos machos usam veneno para evitar serem comidos por suas companheiras fêmeas.
Pesquisadores relataram suas descobertas esta semana em um novo artigo publicado na revista Current Biology.
O polvo envenenador
A espécie em questão é o polvo-de-anéis-azuis (Hapalochlaena fasciata), um pequeno cefalópode altamente venenoso que vive no Oceano Pacífico, na costa leste da Austrália.
Seus braços são cobertos por anéis azuis iridescentes, que eles exibem para avisar predadores que se aproximam para se afastarem.
Os polvos-de-anéis-azuis são minúsculos, medindo apenas seis polegadas de diâmetro, mas seu veneno tem um impacto sério. Suas glândulas salivares são cheias de bactérias simbióticas, que bombeiam um veneno mortal chamado tetrodotoxina, ou TTX para abreviar.
Pesquisadores na Austrália descobriram recentemente que polvos-de-anéis-azuis machos também usam TTX durante a reprodução. As fêmeas são muito maiores que os machos e, após a cópula, as fêmeas geralmente comem seus parceiros.
O sistema de defesa
Os machos desenvolveram uma defesa inteligente contra esse canibalismo. Durante experimentos de laboratório, cientistas observaram polvos-de-anéis-azuis machos injetando uma dose de TTX na aorta da companheira, na parte de trás da cabeça dela.
Essas mordidas não mataram as fêmeas, que são naturalmente resistentes à tetrodotoxina, mas as imobilizaram. A respiração delas desacelerou — e, depois de cerca de oito minutos, parou completamente — e seus corpos ficaram pálidos. Suas pupilas não responderam à luz.
Uma vez que a toxina fez efeito, os machos montaram nas fêmeas e copularam por entre 40 e 75 minutos, sem o risco de serem engolidos. As sessões de acasalamento pararam quando as fêmeas recuperaram o controle de seus corpos e empurraram os machos para longe.
A dosagem certa
Depois disso, as fêmeas passaram o resto do dia comendo e se comportando normalmente — com a adição de um ou dois caroços inchados perto da aorta, os cientistas notaram. E por aproximadamente três dias após a cópula, as fêmeas tiveram uma ferida aberta na aorta devido às mordidas dos machos. Todas as fêmeas começaram a botar ovos de 3 a 29 dias após o acasalamento.
Os machos precisam obter a dosagem certa: eles precisam injetar veneno suficiente para dar a si mesmos tempo para copular, mas não tanto a ponto de acabarem matando sua parceira sexual — um cenário que a equipe não observou, mas que teoricamente poderia acontecer
O macho também precisa morder com precisão a aorta da fêmea — caso contrário, ela pode acordar muito mais cedo. Durante os experimentos, uma fêmea acordou após apenas 35 minutos, porque o macho não atingiu sua aorta.