Getúlio Vargas, um dos líderes políticos mais influentes da história do Brasil, cometeu suicídio em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. A morte do então presidente foi um dos momentos mais dramáticos da política brasileira e gerou uma enorme comoção nacional. Enfrentando forte oposição e pressionado a renunciar, Vargas optou por tirar a própria vida, deixando uma carta-testamento que marcou a história do país.
As circunstâncias e o último dia de Vargas
Na noite anterior à sua morte, Getúlio Vargas reuniu-se com ministros e aliados políticos para discutir a crise política que assolava seu governo. As pressões aumentavam, principalmente por parte da oposição e de setores militares, que exigiam sua renúncia devido a denúncias de corrupção e ao atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, opositor ferrenho de Vargas. Diante desse cenário, o presidente decidiu encerrar sua trajetória política de forma trágica.

Nas primeiras horas da manhã de 24 de agosto, Vargas trancou-se em seu quarto no Palácio do Catete e disparou um tiro no próprio peito, usando um revólver calibre 32. O barulho do disparo alertou seus familiares e funcionários, que correram para o local, mas já era tarde demais. A notícia de sua morte rapidamente se espalhou, e o Brasil mergulhou em um luto coletivo.
A carta testamento de Getúlio Vargas
Antes de sua morte, Vargas deixou uma carta-testamento, um documento emocionante e repleto de acusações contra seus inimigos políticos. O texto foi divulgado pouco após sua morte e inflamou ainda mais a comoção popular. Leia a íntegra da carta:
Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se às dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho e do lucro operário. Os lucros das empresas estrangeiras subiam para mais de 500%. Mas aos lucros não se incorporavam novos investimentos e sim eram transferidos para o exterior. Contra a elevação do padrão de vida do povo, reaparece a campanha de desespero. Quis criar uma liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, sofrendo toda sorte de vileza, esquecendo-me de mim mesmo para defender o povo que agora fica desamparado. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu sangue será o preço do vosso resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.
A comoção popular e o funeral de Vargas

A divulgação da carta-testamento teve um impacto devastador na população brasileira. Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra os adversários de Vargas, responsabilizando-os por sua morte. Houve tumultos em várias cidades, manifestações espontâneas e até ataques contra jornais opositores, como O Globo. No Rio de Janeiro, multidões cercaram o Palácio do Catete, demonstrando indignação e tristeza.
O funeral de Getúlio Vargas ocorreu em São Borja, no Rio Grande do Sul, sua terra natal. Seu corpo foi transportado de avião e depois conduzido em um cortejo fúnebre acompanhado por milhares de pessoas. Durante a cerimônia, amigos, familiares e políticos prestaram homenagens ao ex-presidente, destacando sua importância para a história do Brasil. O enterro foi marcado por um forte clima de luto e revolta.
A morte de Vargas representou um divisor de águas na política brasileira. Seu gesto extremo fez com que muitos de seus opositores perdessem força, enquanto seu legado como líder popular foi ainda mais exaltado. Suas políticas trabalhistas e seu papel na industrialização do país são lembrados até hoje, assim como sua trágica saída da vida para entrar na história.